15.3.07

E os filhos? E a casa?

Entrou no carro bem rápido. Trancou as portas e girou a chave, tudo com a rapidez de quem faz isso há anos. Passou algumas músicas e escolheu aquela que mais parecia agradar. Começou a dirigir, garganta apertada, olhos marejados, vidros abaixados, o vento nos cabelos e o cigarro no canto esquerdo da boca.

A cada tragada, o coração dela ficava mais leve, assim como seus pensamentos. Nem pensava nele, na briga, no que havia acontecido, no que seria daqui pra frente e, muito menos em todo o tempo que passaram juntos. Todos os filhos que teriam, os nomes que iriam dar à cada um, a casa de tijolos aparente com um pequeno jardim atrás, o quarto com a cama queen e lençóis amarelo-claros, a blusa que já nem sabiam mais de quem era, as meias gastas com pequenos furinhos no dedo, as férias que tirariam, os aniversários que comemorariam juntos ... Tragou. Ficou mais leve, sorvendo, em cada segundo, o doce prazer calmante da nicotina.

O sinal vermelho pediu que ela parasse. Ignorando, seguiu em frente sem ao menos olhar para os lados. Quantas vezes havia repreendido as amigas por terem feito o mesmo? Tirou o cigarro da boca, aproveitando o embalo do carro, e mudou de faixa. Tudo fica tão mais tranqüilo à noite, parece que tudo faz sentido. Ligou a sinaleira para a direita e girou a direção, apertando com cuidado o acelerador. O cigarro havia acabado. Ela nem percebera.

Estacionou o carro e, segurando a bituca com a ponta dos dedos jogou-a no chão. Enquanto piscava, sentia a respiração pausada ritmar as batidas de seu coração. Pisou no que restava do cigarro e fechou a porta.

Enquanto andava, tentava respirar e ter certeza de que vivia. E os filhos? E a casa? E as meias rasgadas? E a blusa? E as cores pastéis? Embora.

Pegou o telefone e discou, com cuidado, mas rápido o suficiente para não mudar de idéia...

E os filhos? E a casa?

E ..